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Liderar não é distribuir o que sobra

Quando há justiça percebida, clareza e critério, o time pode não gostar da tarefa. Mas respeita a decisão

Todo líder enfrenta a mesma cena. A tarefa que ninguém quer. O cliente difícil. O relatório invisível. O projeto que não dá palco.

A reação mais comum é tentar “vender” a tarefa. Dourar a pílula. Transformar obrigação em oportunidade épica. Só que a ciência mostra que esse caminho é frágil.

Artigo publicado na Harvard Business Review, “When You Have to Assign Work No One Wants to Do”, baseado em pesquisa conduzida por Adam Eric Greenberg, Vicki G. Morwitz e Kurt P. Munz, demonstra algo contra intuitivo: o objetivo da liderança não é fazer a equipe gostar da tarefa. É fazer com que ela aceite a decisão como legítima e definitiva.

Essa diferença muda tudo. Quando alguém não aceita uma atribuição, entra em estado de meio compromisso. Entrega, mas reclama. Executa, mas procrastina. Cumpre, mas sem energia.

O estudo mostra que a não aceitação gera ruminação, resistência passiva e queda de desempenho. No mundo real isso vira atraso, retrabalho e desgaste cultural. Não é a tarefa que corrói o time. É a sensação de injustiça ou ambiguidade.

Os pesquisadores conduziram sete experimentos com mais de 2,5 mil participantes para entender o mecanismo psicológico da aceitação.

O que eles encontraram não é teoria motivacional. É uma estrutura de legitimidade.

  1. Percepção de escolha
  2. Finalidade da decisão
  3. Legitimidade do processo

Perceba. Não aparece “entusiasmo”. Não aparece “motivação”. Aparece justiça.

1. Percepção de escolha

Mesmo quando o “o quê” é inegociável, o “como” pode ser construído em conjunto.
Autonomia na execução aumenta a internalização da tarefa. Na prática, isso significa parar de microgerenciar. Delegar resultado. Não roteiro.

2. Finalidade

Líderes costumam suavizar decisões difíceis. “Vamos testar por enquanto.” “Depois a gente revê.” A pesquisa mostra que ambiguidade atrasa aceitação. Se a decisão parece provisória, a energia do time vai para a esperança de renegociação, não para a execução. Clareza é respeito.

3. Legitimidade

Talvez o ponto mais crítico. As pessoas aceitam o que não gostam quando entendem o critério. Explicar a lógica da decisão aumenta a percepção de justiça.

Não é sobre convencer. É sobre fundamentar.

O erro clássico da liderança bem-intencionada

Muitos líderes acreditam que precisam “animar” a tarefa.
Exageram benefícios.
Prometem aprendizados milagrosos.
Deixam espaço para renegociação.

A própria análise alerta que esse tipo de estratégia pode minar o engajamento, porque sinaliza insegurança. Quando o líder tenta vender demais uma decisão, o time percebe que ela talvez nem esteja tão sustentada. E é aí que nasce a resistência.

O ponto central não é tornar a tarefa atraente. É assumir a responsabilidade por ela. Nem toda decisão será empolgante, e parte da liderança é justamente sustentar aquilo que precisa ser feito, mesmo quando não gera entusiasmo imediato. Quando o líder tenta transformar tudo em motivação, acaba enfraquecendo a clareza da escolha.

Liderar é organizar o desconforto.
É assumir decisões impopulares.
É colocar o próprio nome na escolha.

Não é motivar artificialmente. É estruturar legitimidade.

Antes de delegar algo indesejado questione:

  • Onde posso oferecer autonomia real na execução?
  • Minha comunicação deixa claro que a decisão está tomada?
  • O critério que usei é claro, coerente e defensável?

Se a resposta for não, o problema não está na tarefa. Está na liderança.

O estudo publicado na Harvard Business Review não ensina a tornar tarefas desagradáveis em agradáveis. Ensina a tornar decisões difíceis legítimas. E isso é outra categoria de liderança.

Líder não é vendedor de tarefas. É arquiteto de aceitação.

Quando há justiça percebida, clareza e critério, o time pode não gostar da tarefa. Mas respeita a decisão.

E respeito sustenta desempenho.